Cronicas Macaenses

Blog-foto-magazine de Rogério P. D. Luz,

A impressão de Macau por um recém-imigrante em 1995

Ruínas de São Paulo em Macau

Ruínas de São Paulo em Macau

Quais as impressões de um chinês recém-chegado da China continental sobre a Macau da época de pré-transição de soberania de Portugal à China? O texto de Wu Hio, aluno do Centro Difusão de Línguas, escrito para as comemorações do Dia de 10 de Junho de 1995, Dia de Portugal, nos fala a respeito:

MACAU: A IMPRESSÃO DUM RECÉM-IMIGRANTE

Texto de Wu Hio, publicado em “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”, DSEJ, Macau 1995

Situada geograficamente na costa meridional da China, no delta de dois rios — das Pérolas e do Oeste — ocupando uma exígua superfície de pouco mais de 23 Km2 (mais de metade obtido pelas operações de aterro ao longo de mais ou menos um século), com uma população que orça pelas 400 mil almas (há quem diga que é a região mais populosa no Mundo) predominantemente chinesas, Macau orgulha-se do seu passado e do presente, mesmo do futuro. É que vive no coração das gentes um verdadeiro convívio de paz, de ordem e de trabalho.

Como se sabe, sendo a terra onde se deu o encontro com o ocidente, onde duas culturas e duas civilizações se entrelaçam, Macau com o nome de Cidade do Nome de Deus, também possui uma admirável e incompreensível vivência de respeito e compreensão entre as várias etnias oriundas de toda a parte do Mundo. Pouco se verificou, dentro das suas muralhas, as diferenças de raças, de credos ou de ideologias, numa existência de vários séculos, o que não aconteceu em outras regiões do Mundo.

Realmente, Macau, para uma pessoa natural do outro lado da “Porta”, é, de algum modo, não só familiar mas também curioso: aparecem-me aqui duas sociedades completamente distintas mas co-existindo pacificamente. Assim, a todo a passo se verifica um sentimento estranho na paisagem, especialmente para uma pessoa que não é natural de Macau: o estilo barroco das igrejas, os edifícios inconfundíveis, as pedras das calçadas onde se recorda os passos firmes dos homens de outrora, o significado dos monumentos, o exotismo dos templos e pagodes chineses.

Essa tal minha impressão foi aprofundada e aprovada quando fui a Portugal para frequentar um curso há três anos, visitando várias cidades deste país, situado do outro lado do Mundo. Uma coisa posso dizer: os portugueses, com os seus quatrocentos anos de permanência em Macau, conseguem implantar numa terra oriental muitas coisas ocidentais sem “nacionalizarem” os povos que aqui vivem, como o que aconteceu nas outras colónias. Ironicamente, nesta pequena terra onde a bandeira das Quinas tem flutuado e que é conhecida principalmente pelos casinos existentes, passados vários séculos desde a chegada dos primeiros portugueses, a maioria dos habitantes não domina a língua portuguesa, a única língua oficial antes dos anos 90.

Inúmeras razões contribuem para esta anomalia que, felizmente, estão a tentar resolver agora quando Macau atravessa o período de transição, especialmente, quando o Governo tomou as medidas necessárias. Ora, mais vale tarde que nunca.

Daqui a menos de 5 anos a China assumirá de novo a sua soberania sobre a território de Macau. Porém, este facto, acho eu, não significa mudança nenhuma no que toca ao desenvolvimento da sociedade em Macau. O encontro ocidental e oriental também continuará.

* Fonte: Livro “Macau di nôs-sa coraçám” edição patrocinada pela Fundação Macau e oferecida aos participantes do III Encontro das Comunidades Macaenses de 1999

 

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Publicado às 25/06/2015 por em Impressões dum chinês e marcado .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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