Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

A questão de jovens na comunidade macaense, segundo Pedro Almeida

Pedro Almeida, da comunidade macaense do Rio de Janeiro.

Pedro Almeida, da comunidade macaense do Rio de Janeiro.

Poderia até dizer, o Pedro Almeida é um gajo polêmico. Não mede palavras quando expressa o que pensa e crê. Nascido em Macau, também se chama de “Peu” ou nome adotado dos estudos chineses de Au Fu Chi ou até se autodenomina de “O Erudito”.

Membro da comunidade macaense do Rio de Janeiro, onde reside, costuma frequentar as principais festas da Casa de Macau de São Paulo, participando especialmente de apresentações em patuá de Macau. Quando há oportunidade, lá sobe ele ao palco com suas anotações e faz os seus discursos, por vezes, polêmicos, tal como na última festa de 28 de junho de 2015, por ocasião da celebração do 26º aniversário da associação e do Dia de Macau.

Abordou a questão tão debatida no meio das comunidades macaenses do mundo todo, que é a participação de jovens nas suas atividades e a esperança que reside sobre eles na continuidade das Casas de Macau ou associações assemelhadas.

A questão de jovens não é só uma preocupação macaense, mas também de várias comunidades, tal como ouvida em São Paulo, por exemplo, a portuguesa e a italiana.  No entanto, a macaense, de Macau, há um diferencial. Macau viveu cerca de 440 anos sob administração portuguesa, e a partir de 1999 passou a ser administrada por chineses, resultado da transição de soberania de Portugal para a China. Bom isso é uma questão que pode ser abordada numa outra postagem, pois esta é dedicada a expor o ponto de vista do Pedro Almeida, que veio trajado todo chique e cheio de estilo, de camisa, calça e sapatos vermelhos, combinando com um echarpe e paletó/casaco preto:

Pedro Almida, da comunidade macaense do Rui de Janeiro.

Pedro Almeida, da comunidade macaense do Rio de Janeiro.

OS JOVENS – a outra face da moeda

Texto de autoria de – Pedro Almeida

E sempre um grande prazer compartilhar com todos vocês esses momentos de alegria festiva nesta Casa, com o gostoso cheirinho da Terra onde me sinto realmente em Macau. Apenas lamento ver que o numero de sócios está cada vez a minguar e não é preenchido por membros mais jovens da nossa Comunidade.

Porquê ? Indaguei. Me disseram que eles não estão muito afim. Então vamos lá !

No meu entender, participar não é simplesmente vir aqui, comprimentar as pessoas, comer, beber e dizer : – “CIAO e até á próxima”! Acima de tudo, participar é CONTRIBUIR ! Além de ajudar com a mão de obra nos preparativos e na culinária (item essencial em todas as festas), como cada um de nós pode contribuir para abrilhantar mais os eventos e garantir o sucesso? Pois bem, o LADO CULTURAL também é parte integrante e primordial da nossa HEREDITARIEDADE . Pode-se apresentar um Coral, fazer um teatrinho, tocar e cantar uma canção, ler uma poesia, fazer uma palestra, esclarecer dúvidas,, responder a perguntas , enfim…. atiçar a CURIOSIDADE sobre a nossa maneira diferenciada e peculiar de fazer as coisas. Eis aí a ALMA DO NEGÓCIO.

Eu diria aos jovens que essa não é uma questão de ESTAR A FIM, muito pelo contrário, é uma questão de PRINCIPIO. NÃO HÂ OPÇÃO. Querendo ou não, eles foram gerados dentro desta Comunidade, com ascendência macaense, portanto carregam  no seu sangue o próprio DNA – herança incontornável e irreversível. PONTO FINAL.

Como todos sabem, uma moeda tem os dois lados, portanto vou falar sobre dois assuntos:: MOTIVAÇÃO e ESSÊNCIA.

  • MOTIVAÇÃO – Indaguei sobre a percepção da maioria sobre o que é a Casa de Macau.

Me responderam que é uma espécie de refeitório particular ou local onde se almoça periodicamente, cujo bando de velhinhos saudosistas trocam abobrinhas jogando conversa fora e ONDE os jovens se sentem deslocados, enfadados, renegados e até ignorados, pois não há o que fazer além de encarar alguns pratos (meio estranhos para o paladar deles).

Entenda-se que os jovens são ” CONTEMPORRÂNEOS – QUEREM CURTIR O AQUI E O AGORA INTENSAMENTE”- Eles ainda não viveram o suficiente para entender o siginificado de SAUDADE e o FUTURO para eles ainda está muito distante para se preocuparem é deveras ! É cíclico!

Sabemos também que EXPERIÊNCIA não se ensina …tem que ser vivida!

Quantos deles conhecem o REAL MOTIVO (OBJECTIVO) da existência das Casas? Já tiveram a curiosidade de ler o ESTATUTO ? Quantos já frequentaram a biblioteca?

Fizeram perguntas e não obtiveram respostas? Pesquisaram a fundo os nossas hábitos e costumes ?

Agora, quando começarem a namorar, inicia-se um novo ciclo. A curiosidade dos pares começa a aflorar e perguntam:- “É verdade que vocês celebram dois ANOS NOVOS no mesmo ano? Vocês também celebram dois aniversários? Vocês comem cobra e cachorro mesmo ou é folclore? E verdade que vocês pensam em chinês e traduzem para o português e misturam tudo junto com Inglês quando falam ?!! Coisa peculiar !!!

Quando os filhos deles iniciarem uma pesquisa escolar sobre as suas RAÍZES e começam a fazer umas perguntas similares. . .aí o bicho pega!

Começam a refletir e perceber que PERDERAM uma grande oportunidade de conhecer os fatos e folclores vindos diretamente das fontes vivas (quiçás enciclopédias ambulantes) e a lamentar por não ter trocado ideias com esses velhinhos saudosistas.

Sabemos que pesquisas em bibliotecas (ou googles da vida) jamais terão a chancela de quem realmente viveu os fatos in loco (ao vivo c a cores).

PERDEU, MEU JOVEM. .. O BONDE PASSOU. Infelizmente o tempo não volta atrás.

2) ESSÊNCIA – Cabe à Diretoria e a cada um dos sócios esclarecer aos jovens e mostrar-lhes a importância da presença deles nestas festas. Acima de tudo, reconhecer que a participação deles é essencial e fundamental para a continuidade e preservação da MEMÓRIA MACAENSE. Neste lado, também não existe opção! A NOVA GERAÇÃO é a ESSÊNCIA destas Casas, porque sem eles não haverá mais Casas de Macau.

Espero ter contribuído com essa pequena luz no fim do túnel colocando o foco na JUVENTUDE e ter alimentado a esperança resiliente no fundo da nossa alma macaense, pois a esperança é a penúltima que morre !

Para finalizar, em nome da CULTURA, quero prestar uma homenagem IN VITA à nossa querida escritora, roteirista e teatróloga patuense, pois também não vejo herdeira dela neste momento, o que nos deixará um grande vácuo na próxima geração. Peço uma salva de palmas para a MARIAZINHA*.

Por outro lado, faço também uma referência ao exaustivo trabalho e esforço impar do nosso conterrâneo para compilar e publicar os fatos e fotos dos acontecimentos que ocorrem dentro da nossa comunidade afim de preservar a Memória Macaense.. Sem dúvida um grande legado para a próxima geração também. Uma salva de palmas para o nosso querido ROGÉRIO LUZ

Muito obrigado pela vossa atenção. Tenho dito.

Au Fu Chi (Pedro Almeida)

(O Erudito)

Nota: assinado com carimbo chinês do seu nome

* Mariazinha, de sobrenome/apelido – Carvalho, é uma teatróloga macaense de São Paulo que domina o patuá e autora de diversas peças teatrais no dialeto. O Pedro Almeida tem participado de algumas apresentações em conjunto com a Mariazinha.

Por minha parte, agradeço a gentileza da homenagem ‘in vita’ na sua referência à minha pessoa.

(Fotografia de/photos by Rogério P.D. Luz)

O Pedro Almeida todo cheio de estilo com emblema português no seu paletó/casaco

O Pedro Almeida todo cheio de estilo com emblema português de Macau no seu paletó/casaco

Casa Macau S.Paulo festa aniverario e Dia de Macau 28

Pedro Almeida

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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