Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Alda de Carvalho Ângelo, seu livro, seu minchi

a capa do livro com a reprodução em bico de pena do seu esposo Amílcar Ayala Orois Ângelo

Atualização 15/04/2012: Infelizmente, pelo comentário do seu filho Alberto  (vide abaixo clicando no Comentário) Alda Carvalho Ângelo faleceu em Fevereiro de 2010.  Peço uma oração pela paz da sua alma.  Descanse em paz Dona Alda!

ALDA MARTINS DE CARVALHO ÂNGELO, macaense, natural de Macau, reside em São Paulo segundo últimas informações, porém já faz um bom tempo que não temos notícias da nossa conterrânea.  Na última vez que esteve na Casa de Macau percebia-se que a Dna. Alda vivia as limitações que acometem muitas pessoas de idade.

Tenho boas lembranças da Dna. Alda que costumava frequentar a nossa casa.  Era amiga da minha mãe e sempre estava acompanhada do seu esposo, Amílcar Ângelo, de boa prosa e culto, contava que fotografou para a National Geography, até que partiu para o seu descanso eterno. Na época do Natal, era na sua casa, vizinha da nossa na região central, que a malta se reunia para um almoço.  Lembro-me do seu Diabo, que logo publicarei a receita.  Naquela época nos anos 70, era uma festa só e nos apertavamos no seu apartamento da Rua Abolição, insuficiente para comportar a todos, obrigando alguns a ficar no corredor.  Era um bom momento para matar as saudades de Macau, pois a maioria era recém imigrante.  Faço votos para que ela esteja bem, e ao publicar a sua obra, quero prestá-la uma singela homenagem.

A malta macanse nos anos 70 em reunião na casa de um conterrâneo em São Paulo, Brasil, por ocasião da visita do Padre Moreira.  Na 1a. fila, eu sou o 4º a contar da esquerda, após o Pe. Moreira.  A Dna. Alda, a 6ª da esquerda na fila do meio, ao lado da minha esposa, a 5ª.  Amílcar Ângelo é o 3º da última fila, da esquerda. Como não tenho o nome de todos, fico devendo a legenda completa para depois. Agora, se alguém puder prestar um bom serviço, favor informar no seu Comentário desta postagem.

‘O livro “Fragmentos do Oriente”

O livro, de sua autoria, foi publicado em São Paulo, Brasil, em 1965.  Dedicou-o à sua mãe Cândida Maria dos Remédios Carvalho, falecida em Macau em 14 de Janeiro de 1965.  A apresentação:

“Rápidos apanhados da vida cotidiana: de usos e costumes: aspectos folclóricos: bombardeamento de Hong-Kong durante a segunda guerra mundial; viagens; culinária chinesa e macaense; que, a traços largos através de contos e narrativas, são focalizados pela autora que é natural de Macau, colônia portuguesa ao sul da China, onde viveu durante trinta anos.”

ALDA MARTINS DE CARVALHO ÂNGELO. Escritora portuguesa, é autora do livro “Taquigrafia Portuguesa Pitman” editado pela Casa Pitman de Londres, Inglaterra; selecionou e tomou parte na tradução “Maravilhas do Conto Chinês” editado em São Paulo, Brasil; colaborou em revistas e jornais do Rio de Janeiro e São Paulo. É membro da União Brasileira de Escritores, da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e Associação dos Profissionais de Imprensa de São Paulo. Brasil.

Alda escreve sobre o Minche e dá várias receitas.  Duas estão publicadas aqui e outras quatro: ovos recheados com minche,madeira fán (arroz frito com minche), espaguete e minche ao forno e nabo chau-chau porco, numa futura postagem.

Minche (carne moída no Brasil)

O arroz e minche é para os macaenses o que o arroz e peixe salgado é para os chineses, o que o arroz e feijão é para os brasileiros. A palavra minche teria vindo do inglês “mince” (moer), ten­do sofrido transformações como “minci” ou “minchi” e finalmente para minche.

Este prato, de fácil preparo, de gosto deli­cado, exótico, urna combinação ocidental-oriental, digamos, de apresentação ocidental com as carac­terísticas orientais, é um prato de grande versatibilidade. Tudo se é possível fazer com o minche. Ele pode ser servido tanto na mesa do pobre como na do rico, simples ou enfeitado; pode ser servido com o pão ou com o arroz branco; pode ser como complemento de outros pratos; serve para acen­tuar o gosto de certas comidas; pode ser comido frio ou quente; pode ser guardado para o dia seguinte para fritar arroz, para fazer omeletes, rechear ovos, bolinhos de batatas; pode ser frito com legumes… as possibilidades do minche, do prato nacional macaense, são ilimitadas.

Não me é possível neste singelo trabalho trans­mitir aos leitores tudo sobre a cozinha macaense — isso encheria um livro de bom volume, que, se Deus quiser, será para a próxima vez. No mo­mento, escolhi um número de receitas de pratos mais representativos da mesa macaense. Isto, sim, está dentro do propósito do presente trabalho: um pouquinho de tudo trazer para cá. Isto explicado, vamos ao minche. que os leitores, certamente, de­vem estar curiosos por conhecê-lo:

Minche sutate (minha receita, adaptada para o meio)

Receita para 4-6 pessoas.

1/2 kg. de carne moída (eu prefiro eu mesma moer a carne.,  sem  as pelancas)

1 cebola de tamanho médio cortada em rodelas fininhas

2 colheres de sopa de molho de soja (shoy-ú / sutate)

1 colher de chá de açúcar

l pitadinha de pimenta  em pó  (pimenta do reino)

l dente de alho batidinho Não precisa de sal.

Frite as rodelas de cebola em separado até começarem a alourar. Tire para um prato. Ponha novamente banha na frigideira (mais ou menos uma colher de sopa) e, quando ela estiver quente, frite o alho até dourado; junte a carne e com um garfo — em Macau com, uma chareta, colher em forma de concha feita com casca de coco — quebre bem a carne. Frite até secar toda a água. Junte então, a cebola frita, açúcar, pimenta do reino e shoy-u. Continue fritando até o líquido ficar bem reduzido, mexendo de quando em quando com o garfo. Sirva com arroz branco.

A diferença entre minha receita e a de Macau é a seguinte: Lá usa-se dois tipos de molho de soja. O branco — Pák-si-iau — e o preto — Têc~ iau —, este último só umas gotinhas, dispensan­do-se o açúcar, uma vez que o “têc-iau” já é doce. Lá se usa, também, juntamente com a cebola, a cebola seca que não tenho encontrado aqui. Al­gumas famílias preferem temperar a carne pre­viamente com os ingredientes e depois fritar.

Minche de carne de porco

serve 6

1/2 kg. de carne de porco moída

3-4 galinhos de cebola verde picadinhos

l colher de sopa de molho de soja (si iau / sutate)

Numa frigideira, frite a cebola verde em banha quente, junte a carne de porco moída e, com um garfo, quebre bem a carne, deixando-a bem solta e seca. Tempere com uma pitadinha de sal e pimenta do reino. Regue com o molho de soja.

Variações

Pode-se fazer o minche com metade, ou uma parte, de carne de porco e outra, de carne de vaca.

Pode-se juntar ao minche uma batata frita, em dadinhos bem pequeninos. Os dadinhos podem ser arrumados em volta do minche ou misturados com a carne.

Pode-se juntar ervilhas cozidas, em redor, ou misturadas.

Nota do Editor: A receita foi escrita em 1965, época em que os produtos chineses importados eram bem limitados em São Paulo, ao contrário da atualidade quando aqui há praticamente de tudo no bairro da Liberdade e região da 25 de Março. Importante citar que as receitas visavam o público brasileiro.

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11 comentários em “Alda de Carvalho Ângelo, seu livro, seu minchi

  1. ALBERTO ANTONIO DE CARVALHO ANGELO
    15/04/2012

    Com que emoção vejo meus pais lembrados e retratados na comunidade macaense.
    Em nome de meus pais Alda e Amilcar (falecidos em fev/2010 e ago/1996) agradeço a lembrança. Recordo fisionomicamente as pessoas mas não lembro os nomes.
    Fico no aguardo de notícias da Casa de Macau.

    • Alberto, com muita alegria vejo o seu comentário, não imaginava que as postagens sobre os seus pais pudessem chegar a você, mas por outro lado, com tristeza vejo a notícia do falecimento da sua mãe, a Dona Alda, em Fevereiro de 2010. Ansiava por notícias dela, e vieram com tristeza, mas espero que ela esteja descansando em paz ao lado seu pai, o grande Amílcar. Se lembrar, moravamos perto de vocês na Rua Martiniano de Carvalho e na Rua Treze de Maio, onde mais recordo das visitas dos seus pais à nossa casa. As publicações da sua mãe mereceriam ser republicadas, como os Fragmentos do Oriente, por isso comento no blog, é preciso valorizar o trabalho dos macaenses, e enquanto eu puder aqui, vou fazê-lo no que me for possível e do que eu tiver conhecimento. Se me permite, vou publicar ainda alguns trechos desse livro, o único que tenho da Dona Alda. Vou repassar o seu comentário à Casa de Macau e quem sabe você possa conviver conosco numa festa. Grande abraço!

  2. Luis Eduardo Peres Damasceno
    15/04/2012

    Eu tive o privilégio não só de conhecê-la como saborear seu minche.

  3. Além de ter sido uma grande amiga da nossa família, a saudosa Da. Alda foi minha professora particular de ‘shorthand’ nos anos 70. Ela me ajudou bastante. Vocês falam em minche mas eu me lembro do ‘tacho’ dela. Aliás ela era uma excelente cozinheira! Naqueles tempos, como não existia ainda a Casa de Macau e os ingredientes chineses eram bastante limitados, qualquer comida macaense era bem vinda e a casa da Dona Alda era um lugar que os macaenses gostavam de ir! Descanse em paz, querida Dona Alda!
    PS – Não me lembro da foto publicada acima (onde eu estou bem atrás de Padre Moreira, ao lado da Queta e da Mia), nem onde ou quando foi tirada, mas me admiro do grande número de Macaenses reunidos! Aliás, Rogério, onde será que está agora o Padre Moreira?

  4. Roberta de Morais Angelo
    21/04/2012

    Tenho muito orgulho de ser neta desta mulher maravilhosa que foi e será sempre uma grande inspiração e orgulho para mim, agradeço o carinho.

  5. m.olimpia s. rangel (Marola)
    20/05/2012

    saudades de Dna Alda, remexendo em meus guardados achei seu livro com dedicatória, quanta saudades daquele tempo!!! CJC , grupo de jovens que se reunia para missa e para bailinhos sempre supervisionados pelos freis Luciano e Tito.Lembro com muito carinho do Sr Almicar e do Evaristo! Minha mãe ,Dna Juvelina fez cursos de culinária com Dna Alda, moravamos na Martiniano de Carvalho e posteriormente Brigadeiro Luis Antonio, eta tempo bom!!!!!!

    • Muito prazer Marola. Bom comentário seu de saudades. Vejo que éramos vizinhos por acaso, pois morei na Martiniano, Brigadeiro e a Humaitá. Realmente bons tempos aqueles. Abraços!

    • ALBERTO ANTONIO DE CARVALHO ANGELO
      21/05/2012

      Marola
      Não lembro de você especificamente mas, sem dúvidas, lembro da CJC (Comunidade de Jovens Cristãos) formada pelos lembrados freis Luciano e Tito na Basílica do Carmo na rua Martiniano de Carvalho e da qual meu irmão Ito (Evaristo) foi participante ativo.
      Aliás, pelo sobrenome Rangel acredito seja a moça que morava na casa dos leões na Martiniano e que namorava o Rangel de quem meu irmão comprou o primeiro carro, um fusquinha. Se não for desculpe e de qualquer forma agradeço a lembrança dos meus queridos e saudosos pais e irmão.

  6. Pingback: “Quando Hong Kong foi bombardeada”, por Alda de Carvalho Ângelo ( 1 ) | Crónicas Macaenses

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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