BEBINCA DE NABO (“LÓ PAK KOU”)
por JORGE BASTO (macaense residente em Portugal)
Quem tendo vivido em Macau não conhece o “ló pak kou”? É um delicioso prato da cozinha tradicional, muito apreciado, tanto pelos macaenses como pelos chineses. Porém cada um à sua maneira…, e bem diferentes.
E é isso que pretendo abordar, sobre essas diferenças de natureza cultural -de hábitos de alimentação e de convívio-, de alguns pormenores sobre os ingredientes utilizados, longe da própria “culinária” em si, sobre a qual me considero um “nabo”.
1. As duas “maneiras”
Comecemos pela maneira “chinesa”. É um prato que se come ao pequeno-almoço ou ao almoço, no conhecido “dim sum” no dia-a-dia, mas muito popular durante o Ano Novo Chinês porque o nome soa parecido a “boa sorte”. Come-se sózinho ou acompanhado de amigos, numa tendinha da rua ou num restaurante, servido usualmente na forma de fatias fritas, ao qual se juntam molhos doces ou salgados a gosto. Continuam a existir muitíssimos restaurantes que o servem na China e pelo mundo fora.
Depois a maneira “macaense”, que eu prefiro. Come-se ao lanche, no conhecido “chá gordo”, por volta das 18h00. Come-se quase sempre em grupo e em ocasiões de convívio –aniversários, casamentos, festas, etc-, servido sem fritura prévia e à colherada, ao qual se juntam molhos salgados do tipo soja e picante (“siao” e “lat tchiu cheong”).
Tendinhas e restaurantes disso já não existem mais em lado nenhum! Quem o quiser comer “faça você mesmo” se o souber, ou então tem a sorte de encontrar alguém que o faça, em casa, numa festa ou coisa parecida.
Esta maneira “macaense” era feita com muito carinho, tudo à mão, pelas “senhoras macaenses” muito prendadas! Felizmente ainda existe uma nova geração que ainda os faz para gulosos como eu, pelo mundo fora!
2. Os seus ingredientes muito específicos
Do que conto sobre os ingredientes resulta muito da minha curiosidade de durante anos ver a minha mãe a cozinhar o “ló pak kou”. Tanto quanto me lembro, ela era considerada no seu círculo de amigos quem melhor o fazia. Então aí vai o pouco que me apercebi.
3. Os ingredientes
Obviamente temos que começar pelo mais importante, esse tal senhor “nabo”! A questão é que para esse prato ser feito como deve ser, não se utiliza o nabo, mas antes “rábano”. Aí é que está o primeiro obstáculo quando se pretende cozinhar essa delícia fora de Macau. Se não vejamos.
Segundo uma fonte (http://hortas.info/como-plantar-r%C3%A1bano), “o rábano é erroneamente conhecido como nabo japonês (“daikon”, grande raíz), nabo chinês (“ló pak”) ou nabo comprido, pois não é realmente um nabo, e sim uma variedade asiática do rabanete.” Vejamos as diferenças nas fotos abaixo.
Quem se esquecer desta dica, lembre-se pelo menos que para um bom “ló pak kou” tradicional, há mesmo que “tirar os nabos da púcara”! Já li diversas razões para isso, tais como a sua frescura, suculência, cheiro que se consegue eliminar, etc. Não há hipóteses!
A seguir, outro pormenor prende-se com as carnes que se introduzem. O conhecido chouriço chinês (“lap cheong”) é hoje vendido fora do mundo chinês, envolvido numa capa de plástico, não comestível, por razões que desconheço. Isso tira-lhe quase todo o gosto e cheiro. Mesmo assim é preferível do que substituí-lo por outro chouriço ocidental, tipo linguiça.
A outra carne, bacon chinês (“lap iôk”), talvez se encontre à venda embalado, só que tem demasiadas calorias. Como existem formas diversas de cozinhar o “ló pak kou” há quem o substitua por carne picada (porco 50%, vaca 50%, tal como no tradicional “minchi”), ou então por galinha picada que dá mais trabalho. Uma substituição fácil, gostosa e mais saudável.
Por fim, falando no “topping” quando se apresenta à mesa decorado com uns “verdes” (“tchông”) saborosos e cheirosos, cortadinhos em rodelas, há que atender a uma diferença.
A da esquerda a “verde” é mesmo a que se usa no verdadeiro “ló pak kou” e em toda a comida chinesa, o “tchông”, vendendo-se nas mercearias chinesas. A da direita a “francesa” vende-se nos grandes supermercados ocidentais. Reparem primeiro com os olhos na diferença da forma, e depois com o nariz pelo cheiro (só na loja… claro). Em casa, no gosto, não há comparação!
3. A receita
Cada cozinheiro/a tem a “sua” receita! Esta que junto é à maneira tradicional macaense, que me parece “ui de sabroso”.
http://rpdluz.tripod.com/projectomemoriamacaense/gastronomia-comunidadebr3.html
Quem se interessar, pode ver outra receita, até mesmo em patuá https://cronicasmacaenses.com/2012/02/25/patoa-receita-de-lo-pak-koubebinga-de-nabo-a-moda-da-mariazinha/
Na preparação deste prato o que dava mais trabalho era desfiar o rábano em tiras fininhas, feito à mão com um ralador. Felizmente hoje já existem aparelhos de cozinha eléctricos multifuncionais que nos poupam esse “trabalhão”, num piscar de olhos.
Mas no antigamente “ancusa nhonhônha sábi vâi chipi ancusa di butám? Istunga de cumplicaçám qui tai-pán comprâ? Iou chamâ MuiChai…”
4. Vídeo sobre como cozinhar
O vídeo que encontrei (de HK) e que melhor se aproxima do “ló pak kou” macaense encontra-se neste link
http://www.youtube.com/watch?v=jnCvQbDMQSU
5. O final na mesa
De tudo quanto escrevi, esta é a parte na qual, modéstia à parte, me considero um “expert”!
Basta-me tirar uma colherada para o prato… e acrescentar os molhos! Que saudades…
Rogério P D Luz, amante de fotografia, residente em São Paulo, Brasil. Natural de Macau (ex-território português na China) e autor do site Projecto Memória Macaense e o site Imagens DaLuz/Velocidade.
Memória - Bandeira do Leal Senado - para nunca ser esquecida -CIDADE DO SANTO NOME DE DEUS DE MACAU, NÃO HÁ OUTRA MAIS LEAL- Esta é a antiga bandeira da cidade de Macau do tempo dos portugueses, e que foi substituída após a devolução para a China em Dezembro de 1999
O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau (ex-território português na China por cerca de 440 anos e devolvida em 20/12/1999) sua história e sua gente.
Macaense – genericamente, a gente de Macau, nativa ou oriunda dos falantes da língua portuguesa, ou de outras origens, vivências e formação que assim se consideram e classificados como tal.
*Autoria de Rogério P.D. Luz,, macaense natural de Macau e residente no Brasil há mais de 40 anos.
Escrita: língua portuguesa mista do Brasil e de Portugal conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.
cartaz de Ung Vai Meng
O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.
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Deu saudade do bolo de nabo que minha querida vó Alzira fazia de vez em quando.
Imagino como devia ser gostoso. Obrigado pelo comentário Ana
Muito esclarecedores os seus comentários. Meu filho tornou-se vegetariano e pesquisando receitas fui dar com várias falando do nabo japonês. Comprei-o mas comecei a procurar receitas na internet e dei com o seu blog. Sou portuguesa mas tive parentes que moraram em Macau muitos anos. Tenho muita vontade de ir até lá para ver como está agora. De vez em quando vou voltar ao seu blog. Felicidades.
Renata Santos
Muito agradecido Renata. Seja sempre bem-vinda a este blog. Esta postagem foi possível graças ao bom trabalho do colaborador Jorge Basto.