Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

A 2ª Guerra Mundial em Macau: tempos difíceis

A população de Macau aumentou 5 vezes na II Guerra Mundial, alcançando quase os números atuais, porém com menor extensão territorial, somando ao drástico racionamento de gêneros alimentícios entre outras tantas dificuldades. Ao invés de contar mais a respeito, leia o artigo assinado por Luís Sá e Pedro Dá Mesquita, publicado na Revista Macau, complementando a postagem anterior que contou as “Histórias de Ocupação” e as histórias contadas por Alda de Carvalho Ângelo cujos links estão no fim desta publicação.

Macau 2ª guerra mundial.40 anos depois.edit (01)

 

40 ANOS DEPOIS (em 1985) – A II GUERRA MUNDIAL EM MACAU

Artigo de Luís Sá e Pedro Dá Mesquita publicado na Revista Macau edição Junho de 1985

quarenta anos era festejado em todo o mundo o fim da maior guerra de sempre que, dos gelos ao deserto, de norte a sul, do ocidente ao oriente tinha, durante seis longos anos, incendiado o globo. Em Agosto de 1945, o Império Japonês fragmentava-se destruído na derrota e em Macau respirava-se finalmente de alívio. Não afectado directamente pela situação de guerra, Macau era, no raio de milhares de quilómetros, o único pedaço de terra onde não chovia a metralha. Por isso se imagina o que foram aqueles três anos e sete meses que durou a invasão japonesa à vizinha colónia de Hong Kong e às províncias orientais chinesas.

QUANDO em Setembro de 1939, os uniformes castanhos da Wermacht iniciaram a incursão aos países europeus, a maior nação da Ásia encontrava-se já há dois anos invadido pelos japoneses. Metade do exército do Sol Nascente estacionara na China, invadindo-lhe a Manchúria e as províncias orientais. Em 1938, Cantão, importante centro comercial caía nas mãos dos nipónicos. Nessa altura, as intenções japonesas ainda permaneciam obscuras e longínquas do dia 7 de Dezembro de 1941, data do ataque aéreo a Pearl Harbour. No entanto, sabia-se que a estratégia nipónica residia no cerco pela periferia da grande China, esperando que o tempo e a persuasão fizessem o resto, isto é, provocassem a conquista das províncias do norte e da zona da IndoChina. Lá chegariam, com o decorrer da guerra, avançando até ao Sião, até Singapura, mas detendo-se numa Índia, curiosamente na sua fase anti-britânica, e forçados a regressar às origens do Oceano Pacífico.

Com a queda de Cantão, a colónia britânica de Hong Kong vai receber, entre 1937 e 1939 cerca de 750 mil refugiados. Eles vinham de toda a costa ocidental chinesa, Cantão, Shangai, Nanking, Pequim. Alguns eram portugueses das comunidades costeiras chinesas. A população portuguesa de Shangai vai ser aquela que mais sofre com as investidas militares japonesas. Alguns dos refugiados, que elevam a população de Hong Kong para l milhão e meio de pessoas, procuram abrigo em Macau antecipando, assim, o grande fluxo que está prestes a registar-se.

Não se pode dizer que, em 1941, a invasão japonesa a Hong Kong tivesse sido surpreendente. O forte exército do Sol Nascente, que desde 1938 controlava grande parte da rota de Marco Polo sempre tinha manifestado indesmentível simpatia pelos seus congéneres alemão e italiano. Mais ambicioso até, sonhava com a constituição de um eixo que incluísse a Alemanha, Itália, Japão e… União Soviética. Com efeito, em Abril de 1941, antes da entrada japonesa nas hostilidades, japoneses e soviéticos assinam um pacto de não agressão que liberta os nipónicos da ameaça russa sobre a Manchúria e os faz crer que os quatro gigantes depressa dominariam o mundo.

John Pownall Reeves, cônsul da Inglaterra em Macau durante a ocupação de Hong Kong. O seu trabalho granjeou-lhe o respeito dos exilados ingleses.

John Pownall Reeves, cônsul da Inglaterra em Macau durante a ocupação de Hong Kong. O seu trabalho granjeou-lhe o respeito dos exilados ingleses.

HONG KONG CAI COM PEARL HARBOUR

TUDO se complica, como se sabe, com a invasão nazi ao território da URSS, facto que vai apressar a entrada de Tóquio no conflito. Ingleses e alemães seguiam de perto a evolução nipónica na China e quando os japoneses ocupam bases militares francesas do Sudeste Asiático, mercê do acordo com o governo de Vichy, as preocupações aumentam por banda dos britânicos que viram assim ameaçadas as suas possessões – Singapura, Malásia, Índia, Nepal.

Tudo estava, portanto, preparado para a entrada japonesa na II Grande Guerra e em Macau e Hong Kong, habituados há alguns anos a uma vizinhança forçada com o invasor japonês, os receios começam a ter fundamento.

Macau tinha-se tornado, nesses anos, num importante centro acadêmico da região. Os refugiados trazem com eles os filhos e a estes juntam-se os estudantes vindos de toda a China que têm aqui as condições de paz e de estabilidade que lhes permitem a formação. Durante a invasão, os números dos estudantes chineses em Macau subirão a 30 mil, o que é um facto extraordinário e só repetido dezenas de anos mais tarde. Nessa época, a população fixa de Macau estimava-se em cem mil pessoas, aumentando, depois, para 500 mil habitantes.

O dia 7 de Dezembro de 1941 amanheceu solarento e calmo. No céu do Hawai nada faz prever o que se iria passar e os marinheiros americanos das esquadras estacionadas em Pearl Harbour não acreditariam por nada deste de mundo se lhes dissessem que mais de 2400 dos seus morreriam dentro de horas. O ataque japonês é rápido, surpreendente e terrivelmente eficaz: 2400 mortos, 200 aviões destruídos e 70 barcos de guerra afundados. O Japão e os Estados Unidos tinham entrado na guerra.

Quase em simultâneo, a guerra chega ao Sul da China, à vizinha colónia britânica de Hong Kong e, por acréscimo, a Macau. No dia 8 de Dezembro, dá-se início à acção tão longamente esperada e temida. Vindos do continente chinês, os japoneses atravessam a fronteira terrestre e ocupam os Novos Territórios, e Kowloon, a norte da colónia. Os ingleses retiram-se para a ilha de Hong Kong e começa a defesa.

Nela vão participar todos os efectivos ingleses existentes em Hong Kong, a aviação, os contigentes ingleses e canadianos e o Corpo de Voluntários de Defesa de Hong Kong que inclui numerosos portugueses que ali residem. A resistência é inferior em todos os domínios à capacidade dos invasores e o dia de Natal de 1941 traz uma prenda amarga: Hong Kong não resistira mais do que duas semanas. Macau, passava a partir daquele dia a ser o único território num raio de muitos milhares de quilómetros a beneficiar da normalidade da paz e, porventura, a não ter diante de si o espectro de uma invasão.

Ao contrário de Timor que tinha para os japoneses a importância de uma testa de ponte para a possível invasão à Austrália, Macau, caída Hong Kong, beneficiava da sua pouca importância estratégica e do não interesse dos japoneses em dispersarem as forças. Por outro lado, a política do Governo da República e do Território, permitia a salvaguarda da soberania portuguesa em Macau em moldes que, pode-se dizer, contentavam todos. É desta forma que durante a ocupação japonesa de Hong Kong, a bandeira de Sua Majestade vai flutuar sempre em Macau, no consulado-geral de Inglaterra, a pouco mais de 40 milhas do ocupante.

É desta forma, ainda, que os combatentes japoneses se habituam a vir a Macau conhecer uma situação de paz que lhes era estranha há já algum tempo. Aqui vão conviver, durante os quase quatro anos da ocupação os chineses fugidos da China, os ingleses expatriados de Hong Kong, os invasores japoneses e os portugueses.

Frequentemente a vizinhança não é pacífica: os súbditos ingleses evitam passar perto do antigo Hotel Central, onde os japoneses usam instalar-se; estes não querem nem ouvir falar da existência da Union Jack no Território; o tempo vai ser propício aos jogos duplos, às falsas adesões, ao desconfiar de todos. Enquanto as fortunas se fazem e desfazem em poucas horas, os grupos de refugiados vão continuar, malgré tout, a organizar os seus bailes, cada vez mais concorridos  e  animados.   A  guerra continua fora de portas.

Barcos de Hong Kong em Macau: antes da ocupação, desenvolveu-se o tráfego marítimo de géneros entre os dois Territórios.

Barcos de Hong Kong em Macau: antes da ocupação, desenvolveu-se o tráfego marítimo de géneros entre os dois Territórios.

ILHA CERCADA DE GUERRA POR TODOS OS LADOS

Governador Gabriel Maurício Teixeira: «Confio no vosso patriotismo».

Governador Gabriel Maurício Teixeira: «Confio no vosso patriotismo».

NO entanto, Macau vai viver um tempo de inacreditáveis esforços para poder sobreviver a uma guerra que não era a sua, para poder prestar auxílio a todos os que acorriam ao oásis de paz no meio da guerra. Oásis, mas não paraíso, pois de facto nem Macau nem as suas gentes estavam preparadas para, em poucos meses, verem elevada cinco vezes a sua população.

Um dia após o ataque a Hong Kong, que inclusivamente apanhou desprevenidos um grupo de portugueses de Macau que ali se tinham deslocado, o Conselho do Governo de Macau reúne-se em sessão extraordinária. Estão presentes, para além do Governador Maurício Teixeira, que preside, os vogais Menezes Alves, Pereira de Lacerda, Marques Pinto, Cruz Esteves, Pacheco Jorge, Viseu Pinheiro, Leal Maciel e Leong Hau lun, este em representação da comunidade chinesa.

Na predica que imediatamente profere, o Governador de Macau faz o ponto da situação: «este ponto geométrico que é Macau destoa pela sua tranquilidade do incêndio que lavra por todo o Extremo Oriente, e cujos reflexos não pode deixar de sentir». Depois de explicitar a sua confiança no patriotismo dos presentes, Maurício Teixeira refere ser impossível o Governo da Colónia suportar todos os sacrifícios que lhe vão ser pedidos revelando, ao mesmo tempo, que vão ser adoptadas todas as medidas julgadas necessárias, mesmo as aquelas que pela sua dureza possam gerar descontentamento.

Em Dezembro, estava-se no início do processo que iria quintuplicar a população de Macau. Os refugiados de Hong Kong, que se vêm juntar aos muitos refugiados da China já em Macau, começam a chegar em Fevereiro. Para todos eles, espera-se um crédito de 4500 patacas, especialmente aberto naquela sessão do Conselho do Governo. Outras medidas tomadas em catadupa, vão reflectir o estado da situação.

A cidade começa por ser dividida em zonas, de modo a facilitar a distribuição das senhas de racionamento que então se criam. Medida justificada pelo facto de Macau ter, a partir de então, ficado isolado do resto do mundo, cercado por terras invadidas pelos japoneses. As comunicações com a metrópole tornam-se quase impraticáveis e tão demoradas que quase não vale a pena. Assim, os géneros existentes vão ser contabilizados até à última gota.

Um pão, um cate de arroz, cinco taéis de açúcar e de azeite, dois taéis de carne de vaca, eis alguns dos géneros de que os adultos dispõem diariamente; às crianças, por vezes, a ração é-lhes reduzida metade. Todas as mercearias foram encerradas, exceptuando-se as que vendem géneros contra a entrega de senhas, e o seu conteúdo posto à disposição do Governo; o consumo de energia eléctrica vai ser reduzido até 80 %, eliminando-se os néons e, durante alguns períodos, a iluminação pública. Vão ser tempos difíceis de desmesurado sacrifício que se acentua com o prolongar da invasão.

NO REINO DO MERCADO NEGRO

NO início, há uma significativa gama de produtos, depois, à medida que o tempo passa e que o número de refugiados aumenta, começa a escassez. Um cigarro passa a valer somas incalculáveis,  aqueles  que bebem uísque denunciam-se como membros ou clientes das numerosas redes de contrabando que começam a operar, fazendo a fortuna dos seus cabecilhas, as quantidades de racionamento vão diminuindo, diminuindo até serem submersas pelo rico e variado mercado negro que surge.

Já no fim da guerra, o correspondente em Macau da agência Lusitânia, Artur Carneiro, escreverá para Lisboa: «Macau passou momentos de grande aflição tendo os géneros alimentares atingido preços elevadíssimos -batatas, 30 escudos, carne de porco, 140 escudos, pão, 50, azeite, 300».

Sintoma da guerra e da escassez, o mercado negro continua a funcionar nas barbas dos japoneses. Por via marítima e terrestre entra em Macau uma panóplia de produtos que são vendidos a preços do ouro. Os produtos vêm sobretudo da China, mesmo da zonas ocupadas, nas quais os japoneses começam a defrontar-se com a guerrilha local, suportada pelos nacionalistas e pelo exército comunista, então coligados.

SITUAÇÕES DE GUERRA

Para os muitos que não têm dinheiro para comprar por vinte, trinta ou mais vezes o preço normal dos produtos, resta-lhes a assistência governamental e das organizações religiosas e humanitárias que procedem, nas ruas, à distribuição de comida. O moral da população baixa na proporção exacta dos aumentos constantes e brutais dos preços. Alguns acontecimentos vêm desmoralizar ainda mais os portugueses, chineses e ingleses. Um grupo de serventuários dos japoneses rouba um barco inglês, ancorado no Porto Interior e desvia-o para Hong Kong, matando, na operação, elementos da polícia de Macau.

Outro acontecimento que provoca pânico na cidade é o assassinato do cônsul japonês. Um pistoleiro vindo da Coréia encarrega-se da operação, temendo-se que ela viesse a ter consequências de represália que não surgem. No entanto, o conhecimento da guerra virá mais tarde com o bombardeamento americano a zonas de Macau. Um hangar no porto exterior, a baía de Macau, a fortaleza de D. Maria são alvo dos aviões americanos que, presume-se, pensam ser Macau uma praça japonesa. Não era, nem valia a pena o bombardeamento que de resto é quase inofensivo: afundam um barco japonês, destroem parte da fortaleza e ferem algumas pessoas, entre as quais um cabo do exército português que, na Rotunda Ferreira do Amaral, se quedou a ver a evolução dos aviões aliados.

Quando acaba a guerra, a contabilidade dos prejuízos centra-se nos anos de fome, miséria, sacrifícios, doenças, promiscuidade, ruína, fortuna, enfim, dos sintomas característicos de uma ilha de paz no meio do inferno. Talvez por isso mesmo, grande parte da imprensa da época não dê a importância ao desfecho que ela teve em todo o mundo. Nesse quentíssimo mês de Agosto de 1945, alguns jornais dedicam três linhas ao acontecimento, enchendo as restantes páginas com a evocação de Aljubarrota e a organização da Mocidade Portuguesa em Macau.

Afinal de contas, também a oeste, em Portugal, nada de novo. Em Lisboa preparavam-se novas eleições que iriam confirmar o «indesmentível e entusiástico apoio» ao velho senhor…

* Leia também estas postagens sobre Macau na II Guerra Mundial:

https://cronicasmacaenses.com/2014/07/23/macau-na-ii-guerra-mundial-e-as-historias-de-ocupacao-complemento-texto-completo/

https://cronicasmacaenses.com/2012/09/25/2a-parte-quando-hong-kong-foi-bombardeada-por-alda-de-carvalho-angelo/

https://cronicasmacaenses.com/2012/09/24/quando-hong-kong-foi-bombardeada-por-alda-de-carvalho-angelo-1/

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Publicado às 24/07/2014 por em II Guerra Mundial e marcado .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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