Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

José Victor do Rosário, em memória

Faleceu José Victor do Rosário no dia 5 de Fevereiro de 2013, em Portugal, onde residia. Para homenagear um dos grandes nomes do desporto e ginástica em Macau, até os anos 70, e professor de ginástica do Seminário de São José nos anos 60, vou reproduzir a entrevista que concedeu à Gazeta Macaense e publicada em 23 de Abril de 1983, na qual José Victor faz um relato da sua vida:

Gazeta Macaense

edição de 23/04/1983 entrevistador Zéca

José Victor do Rosário - foto publicada na Gazeta Macaense

José Victor do Rosário – foto publicada na Gazeta Macaense de 1983

OUTRO DESPORTISTA  POLIVALENTE FALA À GAZETA

JOSÉ VICTOR DO ROSÁRIO

O local escolhido para esta entrevista foi um banco situado no Jardim de S.Francisco — outrora tão agradável e hoje parece mais um parque de carros do que um sítio convidativo e sossegado. Foi ali que entrevistámos o José Victor grande jogador do hóquei, jogador de basquete e professor de ginástica.

Assim demos início:

(legenda: P=Pergunta / R=Resposta)

P — José Victor pode-nos dizer quando começou a praticar o desporto?

R — Lembro-me quando tinha eu os meus 9 ou 10 anos, já era conhecido no bairro de Tap-Seac, entre a rapaziada da minha idade como o melhor corredor de 50 metros e sempre escolhido para fazer parte da equipa de bolinha (bola de borracha nº 3). Mas a minha estreia como jogador de hóquei em campo, só se fez em 1938, representando o Liceu contra a Universidade de Hongkong, jogo este que vencemos por 4 a 0. No ano seguinte ingressei na 2a. categoria do Hockey Clube de Macau.

P— E quais as modalidades que melhor se adaptou?

R — Pratiquei com certo sucesso as seguintes modalidades: Hóquei em campo, halterofilismo (culturista e levantador), badminton, voleibol de 9, basquetebol, ténis de mesa, tiro, futebol em miniatura, atletismo, xadrês, etc.

Julgo ter atingido o nível internacional no hóquei em campo e levantamento de peso (posições olímpicas) e as restantes modalidades a nível da selecção local ou da 1a. categoria. Nas modalidades individuais ou pares, consegui nos campeonatos de Macau e os campeonatos escolares os 1o. a 3o. lugares.

P— É certo que muitos se lembram do José Victor no hóquei em campo. Pode-nos dizer se ainda chegou a ser treinado pelo célebre Filipe O’ Costa?

R — Não. Nunca tive o Filipe 0’Costa como treinador. Tudo que aprendi do hóquei, devo especialmente aos meus dois irmãos mais velhos: iniciei com o Hugo em 1937/1938 e depois quando ele foi treinador do hóquei em 1954/55, antes da vinda de Filipe O’ Costa, e com o  Rigoberto em 1938 a 1942, das leituras de livros de especialidade, de muitos treinos e observações cuidadosas da forma como os melhores hoquistas de Macau, Hongkong e estrangeiros jogavam e também dos ensinamentos de Laertes da Costa e Dr. J.S. Ferreira.

P— Parece-nos a nós que o José Victor começou a dar nas vistas como jogador de hóquei no tempo da última conflagação mundial e Macau estava cheio de refugiados. É verdade? Ou foi já antes?

R -Sim. Foi nesta altura quando alinhava pela Associação dos Jovens de Macau e depois pela Companhia de Metralhadoras (Militar), ora extintas.

P- Nós principalmente vimos o José Victor distinguir-se depois da guerra quando o Hockey Clube se reorganizou. Que lugares ocupou?

R —Normalmente ocupava o lugar de médio-centro, mas quando conveniente à equipa, alinhava também a defesa-direito.

P- Qual foi a mais alegre recordação que levou do hóquei? E a mais triste?

R — A mais alegre recordação que levei do hóquei foi talvez a vitória sobre a Selecção Militar de HK em 1950 e os vários jogos de «hóquei de 7» contra o Army de HK em Macau, que nunca perdemos e que era muito divertido, extenuante e a técnica empregada completamente diferente do hóquei normal de onze jogadores.

A mais triste, foi o facto das nossas equipas de hóquei durante o período áureo, nunca ter tido a oportunidade de participar nas Olímpiadas ou Campeonatos Internacionais.

P— Ainda nos lembramos de um célebre desafio em que a Selecção de Macau de hóquei venceu a mais forte equipa que Hongkong apresentou por 3 a 1. Qual foi o mais difícil jogador que teve de marcar? E conseguiu-o?

R — O jogador mais difícil de marcar foi o Gadner. Certamente que sim. Consegui marcá-lo a ele e, bem como, também, aos outros que se lhe seguiram. Durante a minha carreira de hoquista de 1948 até 1956, a nossa equipa só sofreu duas derrotas. A 1a. derrota foi no Interport Lusitano de 1948, por 1 a O, resultado duma grande penalidade, originada por nervosismo ou desconhecimento das regras do jogo do nosso guarda-redes «Silva» que numa defesa, segurou a bola e lançou-a para fora da área.

O outro factor, que prejudicou a nossa equipa neste jogo, foi também em parte devida a nossa viagem desconfortável a Hongkong, numa das vedetas da Polícia Marítima e Fiscal. A 2a. derrota foi o Interport de 1951, já mencionada numa das crónicas anteriores.

P- Quando abandonou o hóquei?

R -Como jogador de hóquei, o meu último jogo foi em 1956, contra uma selecção de Hong-Kong, que vencemos por 4 a 1, em despedida do Filipe O’ Costa, que tinha vindo a Macau, especialmente para companhar a equipa local às Olimpíadas de 1956 na Austrália, que infelizmente não se materializou. Mas como dirigente ou treinador, mantive ligado ao desporto local desde 1938 até 1979, quando me aposentei, tendo exercido as seguintes funções:

Vogai da Associação Escolar do Liceu, Secretário do Grupo Basquetebol Macaense, Vogal da Comissão de Atletismo e Ciclismo de Macau, Vogal do Conselho Provincial de Educação Física, Vogal da Associação Promotora dos Desportos Escolares, treinador da AJM, Melco, Militar, HCM, várias selecções de estudantes de Macau e um dos principais responsáveis pelas actividades gimno-desportivas das escolas portuguesas nos períodos de – 1954 até 1977.

P— Fizemos esta entrevista com o duplo fim. O José Victor é além de exímio jogador de hóquei um distinto professor de ginástica. Podemos dizer em que escolas ensinou?

R – Como professor de Educação Física leccionei nas seguintes escolas:

Escola de Educação Fisica «Rosário», Escolas Primárias Oficiais Luso-Chinesa «Sir Robert Ho Tung», Seminário de S.José (externatos e internatos), Escola Comercial «Pedro Nolasco» e a Escola Primária do Colégio D.Bosco.

Em 1966 na festa Gimno-Desportiva do Liceu e das Escolas Primárias Oficiais «Pedro Nolasco da Silva» integrados em várias classes de ginástica conjuntamente com os alunos do Seminário de S. José (externatos) da Escola Comercial e do Colégio D.Bosco.

P- Chegou apresentar algumas classes de ginástica em festas escolares? Pode-nos dizer algo sobre isso?

R —Durante os anos de 1960 até a minha aposentacão em 1979, era certa a apresentação de classes de ginástica na festa de encerramento das actividades Gimno-Desportivas no ginásio ou campo de jogos da respectiva Escola, e também outras para o público num dos seguintes campos Desportivos: 28 de Maio, Colégio D.Bosco ou Campo da Caixa Escolar.

P— Já sabemos que o José Victor deixou de praticar o hóquei em campo. E a ginástica?

R —Ainda pratico um esquema simples de 10 minutos, três vezes por semana.

P— Continua ainda a ser professor?

R — Não, desde a minha aposentação em 1979.

P- José Victor tem alguma recordação alegre das classes de ginástica que apresentou?

R —Sim. Elas foram sempre coroadas de êxito e bem recebidas pelo público. Em 1966, quando o Sr. Dr. A. Marques Pereira, veio a Macau, para dar o 2o. curso de aperfeiçoamento de Educação Física, fez uma visita de cerca de 2 horas e 30 minutos ao Seminário de S.José, para assistir às minhas classes de ginástica (lições completas) dos seminaristas (divisão dos maiores e menores) ficando com uma boa impressão dos alunos e do programa que, então, se ministrava neste Seminário de S.José.

P— Que diz sobre a Ginástica agora em Macau? Acha que progrediu?

R — Lamento não poder satisfazer a esta pe­gunta, visto estar já afastado do ensino há 4 anos e não ter tido oportunidade de a acompanhar. Quanto ao nivel actual do desporto escolar das Escolas Oficiais e Oficializadas, do pouco que tive a oportunidade de ver, é muito inferior às das épocas anteriores. Além de que, não se nota também aquele entusiasmo que havia dantes.

Em relação ao nível atingido nos anos de 1971 a 1973, será muito difícil de ultrapassar, ou mesmo de ser até igualado num futuro próximo.

Registe-se que, neste período, a Escola Comercial era a campeã de Voleibol de Macau (dois anos consecutivos) e as seleccões da província nesta modalidade faziam-se à base dos alunos da Escola Comercial.

No ténis de mesa, um outro aluno da Escola Comercial, Eduardo Pereira, teve a honra de representar Macau, no Torneio Internacional em Lisboa, onde participaram também mesatenistas Franceses, Italianos e Espanhóis na categoria infantis, e se não me engano só foi eliminado nas meias finais. No hóquei em campo a selecção de Macau, que foi a Japão em representação de Portugal, era constituída de pelo menos 50 por cento de jogadores estudantes. No atletismo os estudantes e os militares venceram quase todas as provas do campeonato  local de sêniores.

Finalmente no futebol em miniatura, pela 1a. vez na história do campeonato local de Juniores, a fase final foi disputada por quatro equipas de estudantes portugueses. Classificou-se em 1o. lugar a Mocidade «A», em 2o. lugar com a mesma pontuação a Mocidade «B» e os Lusitanos e em 3o. lugar «Os Jovens».

Sabemos que o José Victor ainda teria mui­to mais a dizer — mas preferiu não dizer nada.

E não dizer nada diz muito. Agora já vêem o «curriculum» deste professor – e em boa hora pusemos em obra a recordação dos atletas de Macau. E a procissão ainda vai para a rua.

Um abraço José Victor.

Zéca

– . –

Fotos das atividades desportivas do Seminário de São José sob a coordenação e instrução de José Victor do Rosário, publicadas no livreto escolar

Jose Victor Rosario (5)

Jose Victor Rosario (2)

Jose Victor Rosario (4)

José Victor do Rosário no Encontro das Comunidades Macaenses, em Novembro de 2007, em Macau.

José Victor do Rosário no Encontro das Comunidades Macaenses, em Novembro de 2007, em Macau. A Mia Luz, esquerda, posou com o simpático casal

*Agradecimentos ao Rigoberto Rosário Jr. “Api”, seu sobrinho, que cedeu o recorte do jornal que fazia parte do acervo do seu pai Rigoberto, citado na entrevista.

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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