Cronicas Macaenses

Blog-foto-magazine de Rogério P. D. Luz,

Pe. Teixeira afirma: “Macau prestou fidelidade à Espanha”

“Cidade do Nome de Deus de Macau, Não Há Outra Mais Leal”, não é bem assim esta “lealdade”? Usando frases “tudo isto é redondamente falso” e “tudo isto é pura fantasia”, Padre Manuel Teixeira, um dos mais renomados historiadores de Macau, no Caderno – Primórdios de Macau – explica a respeito da “lealdade” que tanto a população de língua portuguesa se orgulha e inclusive é inscrita na antiga bandeira da cidade, ou bandeira do Leal Senado.  Leia o texto, faça o seu julgamento, e vê se concorda com o Pe. Teixeira:

1000px-Bandeira_do_Leal_Senado.svg

MACAU PRESTOU FIDELIDADE À ESPANHA

por Padre Manuel Teixeira

Tem-se aventado a lenda de que Macau nunca reconheceu a soberania espanhola e que, por isso, foi esta a única colónia onde a nossa Bandeira continuou sempre a flutuar.

Bento da França, em Macau e seus habitantes (pág. 16), escreve: “Tendo-se recebido em Manila a notícia da união de Portugal e da Espanha, o governador das Filipinas mandou partir para Macau o Jesuíta Alonso Sanches, o qual ia promover ali a aclamação de D. Filipe.

Este padre sofreu muitos contratempos na viagem, lutou com a má vontade dos chinas, e só chegou a Macau em Maio (1582), tendo partido em Janeiro.

Foi muito mal recebido, e retirou sem ter conseguido cousa alguma: a bandeira portuguesa continuou hasteada em Macau.”

Inventaram-se até dois partidos, atirando um bispo contra o outro, como numa arena de gladiadores, segundo se lê no Resumo da História de Macau de Eudore de Colomban (pág. 14): “Alguns, porém, e entre eles o Bispo D. Melchior Carneiro, protestando serem bons patriotas também, puseram-se do lado prático da situação, fazendo ver as dificuldades que viriam de uma oposição sistemática à Metrópole. Dos dois partidos, o de Leonardo de Sá, que era o dos patriotas intransigentes, foi o que prevaleceu; e, para o interesse da Colónia, nunca a bandeira espanhola foi aí arvorada. Para conservar os chineses iludidos a respeito da situação política em Portugal, procurou-se, pouco a pouco, acalmar a agitação dos espíritos, de maneira que a Colónia nunca se revoltou propriamente contra a dominação castelhana, nem a ela se sujeitou.” Tudo isto é redondamente falso.

O Conselho Real das Filipinas e o governador D. Gonçalo Ronquillo Peñalosa (1580-1583) enviaram a Macau, em 1582, o P. Alonso Sanchez, S.J., para anunciar a reunião das Coroas da Espanha e de Portugal sob Filipe II que se realizava em 1580.

No seu livro A História e os Homens da Primeira República Democrática do Oriente (pág. 249), escreve o Dr. Almerindo Lessa: “A cidade vive inquieta durante o interregno filipino e se é certo que dentro dos próprios muros houve excitações e se esboçaram partidos a favor da Espanha, a verdade é que enquanto o Capitão Mor, alguns fidalgos, certos padres e o próprio bispo juraram obediência ao intruso, os moradores fechavam a boca, não se comprometiam”.

Quanto à excitação e partidos, explica ele em nota: “As divergências suscitadas entre os cidadãos pelas lutas de 1580, não podem deixar de enquadrar-se na crise de consciência política que nessa ocasião tanto afectou os portugueses. Formaram-se até dois partidos: um lusófilo, chefiado pelo Bispo D. Leonardo de Sá, abertamente nacionalista, digamos francamente português; e outro, universalista, dominado por preocupações apenas de apostolado, comandado por D. Melchior Carneiro. E se o primeiro vence, é porque conta com o apoio dos chineses, que preferem a continuidade dum rei lusitano”. Tudo isto é pura fantasia.

Em 1580 não houve aqui excitação alguma; a nova da perda da independência só chegou a Macau dois anos depois. Nem em Macau havia muros…

Ele fala de “certos padres” e cita apenas um tal P. António Ribeiro, que nunca existiu em Macau. O mesmo se diga de “alguns fidalgos”, que são inventados. Quanto ao “próprio bispo”, não foi um, mas dois – Carneiro e Sá – os quais prestaram ambos o juramento no mesmo dia. Quanto aos moradores, não fecharam a boca, mas foram representados pelos quatro regedores eleitos pelo povo.

Eis o que realmente se deu: o Vice-Rei, D. Francisco Mascarenhas, ordenou a Macau que prestasse fidelidade a D. Filipe II. Todos obedeceram, incluindo o novo capitão-mor Aires Gonçalves de Miranda, e fez-se o juramento em 18 de Dezembro de 1582, segundo refere um cronista espanhol: “Os juramentos do Capitão-mor, Bispo e Nobreza de Macau foram pronunciados, depois de confirmada a nova pelo Sr. Conde Vice-rei da índia, a 18 de Dezembro de 1582, no Colégio de S. Paulo da Companhia de Jesus, estando presente o Capitão-mor D. Gonçalves de Miranda, os Reverendíssimos D. Melchior Carneiro, Patriarca da Etiópia, D. Leonardo de Sá, Bispo da China, o P. Alexandre Valignano, Visitador Geral dos Padres da Companhia da Índia, China e Japão, o Ouvidor Gonçalves, Melchior Correia, Francisco Rodrigues, Inácio Moreira, Amador da Cunha, Domingos Segurado e outros. A provisão do V. Rei foi lida pelo escrivão Rodrigo Mexias, sendo então feito o juramento de fidelidade a Filipe II.” A Bandeira das Quinas continuou a flutuar, pois, nas Cortes de Tomar: fora estipulado que as colónias portuguesas continuassem com a nossa Bandeira e com administração própria.

Era capitão-mor da Viagem do Japão D. João de Almeida, que então governava Macau; era Bispo efectivo D. Leonardo de Sá e Bispo resignatário D. Melchior Carneiro e Ouvidor Matias Panela.

bandeira

Macau.24.Junho1

* os textos foram sublinhados pelo autor deste blog.

O caderno Primórdios de Macau é uma publicação de 1990 do Instituto Cultural de Macau.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

Pesquise por tema e localidade (ordem alfabética)

Últimas 150 postagens

Estatísticas do blog

  • 893.480 hits

Monitoramento de visitas – contagem desde 01/Nov/2011

free counters

Postagens recentes: Fotoblog do Projecto Memória Macaense

Memórias de Macau de Todos os Tempos (02)

Imagens que trazem saudosas lembranças daquela Macau que não existe mais, mas que permanece viva na nossa memória e nas fotografias a seguir publicadas de forma aleatória, a procurar dar uma descrição a confirmar ou corrigir. O que vale mesmo é o que se diz – recordar é viver! As fotos são dos anos 50 […]

Memórias de Macau de Todos os Tempos (01)

Nesta postagem do que poderia chamar de uma série “Memórias de Macau de Todos os Tempos”, remetendo-me a um vídeo que publiquei no YouTube (vide no final), publico umas fotos antigas recolhidas ao acaso do meu extenso acervo, ora já publicadas no site (inativo) do Projecto Memória Macaense, ou não, e também já republicadas por […]

O Ano Novo chinês celebrado pela comunidade macaense de São Paulo

O Ano Novo chinês celebrado pela comunidade macaense de São Paulo

Para celebrar o Ano Novo chinês de 2018, dando início ao Ano do Cão, a Casa de Macau de São Paulo reuniu a comunidade macaense e amigos para um almoço especial, recheado de boa comida chinesa de dar água na boca. Era a oportunidade para comer, infelizmente, uma vez ao ano, o chái, ou comida de […]

%d blogueiros gostam disto: