Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Bailarinas e cantadeiras dos tempos antigos de Macau

Bailarinas e cantadeiras, que fazem parte de profissões típicas dos tempos antigos de Macau, foi tema de publicação do livro “Na Afirmação de uma Identidade” editada em 1997 pelo Instituto Cultural de Macau, com base na investigação de autoria de Isabel Nunes. Veja:

Cantadeiras chinesas (imagem do livro - Na Afirmação de uma Identidade)

Cantadeiras chinesas (imagem do livro – Na Afirmação de uma Identidade)

BAILARINAS E CANTADEIRAS

Texto de autoria de Isabel Nunes

“(…) Enquanto do Ocidente Lusitano ficam na memória as guitarradas e o fado batido, acompanhado de vinho carrascão e da faca na liga. do Oriente fica a discrição e subtileza com que as “… p’êi-pa-t’chái, deliciosas donzelas, especialmente adestradas na arte de quebrar a monotonia e insipidez dessas reuniões…”cantavam c dançavam ao som da p’êi-pá, do saltério e do piano. (…)

Associada fundamentalmente às mulheres floridas e aos barcos das flores ficou a expressão mundo florido para referir todos estes aspectos, nela se incluindo na sua generalidade toda a prostituição em Macau, nomeadamente as p’êi-pá-t’chái. (…) Vários podem ter sido os motivos que levaram a associar a flor às meretrizes chinesas e ainda à prostituição em geral. Entre eles, a beleza que tinham fama possuir essas mulheres pode ter sido, por associação à beleza das flores, sem dúvida um deles, visto o conceito de prostituição para os Chineses não possuir a conotação negativa que tinha no Ocidente. Mas o mais decisivo foi provavelmente o hábito das meretrizes chinesas se adornarem com flores, o que lhes mereceu o epíteto de mulheres floridas por que tradicionalmente se tornaram conhecidas. As flores eram utilizadas, a par da sua maquilhagem acentuada, como um complemento ornamental (…) e ainda nos seus penteados, habitualmente de grande altura, onde se distribuíam profusamente. Era ainda com flores que as meretrizes engalanavam as casas, casas floridas onde residiam, e decoravam artisticamente os seus altares (…).

Pintura de Gu Hongzhong (imagem do livro - Na Afirmação de uma Identidade)

Pintura de Gu Hongzhong (imagem do livro – Na Afirmação de uma Identidade)

Mulheres floridas e p’êi-pá-t’chái recebiam desde crianças uma educação esmerada, na qual os mais pequenos pormenores não eram descurados, do arranjo cuidadoso e requintado ao culto da música e das letras. O que mais impressionou aqueles que com elas privaram, foi a forma discreta e insinuante com que sabiam explorar os dotes femininos, proporcionando, conforme as situações, uma companhia agradável. Frequentavam meios públicos participando nos mais diversos tipos de reuniões, fossem jantares ou serões, que se prolongavam pela noite fora. e onde cantavam e dançavam ou, para quem preferisse, recitavam poemas e conversavam com elegância entre “expressões de gentileza e meneios de olhos e de mão” que sabiamente empregavam para entreter e seduzir os participantes. (…)

Constituía o estuário do Rio das Pérolas um ambiente sui-generis, no qual sucessivas gerações de famílias habitaram

Barcos de Flores (imagem do livro Na Afirmação de uma Identidade)

Barcos de Flores (imagem do livro Na Afirmação de uma Identidade)

em barcos (…). Entre a diversidade de embarcações que se encontravam fundeadas, contavam-se aquelas onde se exercia a prostituição (…). O seu aspecto exterior, para além da lanterna de papel colorido, iluminada, que os anunciava à distância, era marcado por uma ornamentação exuberante, carregada de flores policromas – peónias, dálias e crisântemos, símbolos de amor, fertilidade e felicidade – em que predominava o vermelho, e que se entrelaçavam em frisos, envolvendo-os e emoldurando-lhes as janelas. Era este aspecto garrido que os distinguia, pelo contraste, da sobriedade habitual dos barcos do sul da China. O seu interior, tal como o seu exterior, era exuberante e luxuoso pois que os seus frequentadores mais assíduos, homens de negócios e ricos proprietários, apreciavam o conforto proporcionado por estes ambientes. (…) A utilização destes barcos encontra-se ligada a uma velha tradição chinesa, em que a gente rica. especialmente grupos de jovens, os alugavam para. na companhia das mulheres floridas, fazerem longos passeios refrescantes pelas águas dos rios e dos lagos, enquanto fumavam ópio.(…)

Entre todos os locais onde se praticava ficou célebre na história de Macau, a Rua da Felicidade, pela grande concentração de casas toleradas. O próprio nome – Felicidade – era já prenúncio de sucesso no amor para quem aí se dirigisse, reforçado pela fama de que tradicionalmente gozavam as mulheres do mundo florido. (…) As luzes dos lampiões, acessos em todas as casas, irradiavam nela tons de brilho e de vida, e o colorido e boa disposição das p’êi-pá-t’chái. agrupadas às portas a conversar garrulamente, o vai-vém dos frequentadores, possíveis clientes, no seu deambular até encontrarem a companhia pretendida, tudo lhe conferia uma animação peculiar.

* Extracto do estudo elaborada em 1991 no Departamento de Patrimônio Cultural no âmbito de investigações sobre Profissões Típicas de Macau, e publicado na Revista de Cultura, da autoria de Isabel Nunes, licenciada em história.

Rua da Felicidade nos tempos antigos de Macau (magem extraída de publicação  de Kng-Chn no grupo de Facebook Antigas Fotos de Macau-3)

Rua da Felicidade nos tempos antigos de Macau (imagem extraída de publicação de Kng-Chn no grupo de Facebook Antigas Fotos de Macau-3)

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Rua da Felicidade, Macau, em 2010

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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