Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

E, o Prémio Identidade 2013 vai para … o Dóci Papiaçám di Macau. Sua história.

Bem merecido, parabéns Dóci Papiaçám di Macau pelo Prémio Identidade 2013.  “O prémio foi criado para contemplar em cada ano uma personalidade ou instituição que tenha contribuído de forma continuada e consequente para a identidade de Macau” diz Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, conforme notícia do Jornal Tribuna de Macau nesta data.

O Prémio vem em boa hora, pois neste ano o grupo que atua como teatro em patuá bem como coral, completa 20 anos.  Miguel de Senna Fernandes que atualmente dirige com competência o grupo, disse que isso representa o reconhecimento pelo trabalho feito ao longo de todo este tempo, servindo de alento para continuar a desenvolvê-lo sempre para melhor. O patuá na forma de teatro é candidata a Património Mundial Intangível pela UNESCO.

Miguel, advogado e presidente da Associação dos Macaenses, quer partilhar o Prémio Identidade com a comunidade, reconhecendo que o trabalho exige persistência. Ao JTM afirmou ““é importante também para a própria comunidade. Não se trata de reconhecer o grupo em si, mas o objectivo do projecto, por pelo menos o patuá estar em palco”.

Para celebrar a premiação e os 20 anos do grupo teatral e musical Dóci Papiaçám di Macau, este blog publica o artigo da Revista Macau de 1994 que fala da fundação do grupo em 1993;

Doci Papiaçam (01)

Dóci Papiaçám

Arte de Sobrevivência

autoria de – Paulo Coutinho

Revista Macau Maio 1994fotografias de Leonor Rosário

Um grupo amador de macaenses reactivou, recentemente (1993), as velhas récitas em patoá, que não se viam em Macau desde 1977 e o reconstruído teatro D.Pedro V voltou às suas noites de glória

Doci Papiaçam (09)

Miguel S.Fernandes, Lísbio Couto e Zezé do Rosário na récita Ôlá Pisidenti

A tensão aumentava à medida que as horas passavam. Do outro lado das cortinas, as cadeiras vazias tinham um ar ameaçador. A assistência, os convidados de honra, tardavam a chegar. O nervosismo e a ansiedade reinantes eram iludidos pelas anedotas que se contavam para descomprimir.

Vêm aí, alguém gritou. Num ápice, a sala enchia-se, e os minutos, que antes pareciam horas, corriam a um ritmo alucinante.

Não era para menos: a récita macaísta voltava ao teatro D. Pedro V, no dia 30 de Outubro de 1993, depois de um interregno de 16 anos, pela mão (e arte) de um grupo de “carolas”, que, salvo raras excepções, nunca se tinham visto em tais andanças.

Vencido algum nervosismo inicial, a apresentadora, Cecília Jorge, cativava a atenção e o riso da audiência, vertendo para o português bem-fêto expressões vernáculas do dialecto maquista. O patoá, dezasseis anos depois, saía dos lares macaenses e das letras impressas dos livros do velho Adé, para se apresentar — Senhoras e Senhores! — no palco do “príncipe” da noite macaísta.

O teatro D. Pedro V, centro da cultura macaense de outras épocas, reabria as portas, cinco anos depois de ter sido encerrado para obras, para encantar e surpreender uma audiência pouco (ou nada) familiarizada com o patoá e a récita macaísta.

Entre a assistência, o Presidente Mário Soares não escapava, ele próprio, ao chiste e à chalaça do doce linguajar de Macau. Figura carismática, mil e uma vezes caricaturado, o Presidente era visto por um novo prisma: pelo corrosivo — mas não menos fraternal — humor da récita macaísta.

No final, nos bastidores, Soares e Maria Barroso confessavam não ter percebido algumas interjeições do dialecto local, mas declaravam ter entendido a mensagem.

E a mensagem, claro, não podia deixar de retratar os sentimentos, as preocupações, as angústias de uma comunidade em plena desagregação geográfica.

No fundo, como diz Miguel de Senna Fernandes, co-autor de Olá Pisidenti e de Mano BetoVai Saiong, 1999 nunca é referido directamente, mas está sempre presente.

Mas, afinal, o que é que fez este grupo de macaenses “roubar” precioso tempo aos seus afazeres, perder noites e energias, e (à beira de um fim) fazer ressuscitar do baú das recordações uma tradição empoeirada e pouco consentânea com a avidez dos dias de hoje?

Miguel de Senna Fernandes vê as coisas num plano emocional: fazer as récitas é como que dizer a nós próprios que existimos. Que existe em nós uma identidade própria. antes e depois de sermos portugueses.

Julie Senna Fernandes — “alma” do grupo — tenta racionalizar, apesar da lágrima traiçoeira: O reaparecimento do D. Pedro V ajudou muito. Não há outro espaço em Macau que crie a ambiência deste teatro e atraia a comunidade macaense. E a razão de ser de tudo isto é nada mais do que unir os macaenses.

Doci Papiaçam (02)

A reunião de Lisboa

Doci Papiaçam (07)

Lísbio Couto e Julie Senna Fernandes na récita Unga Istória di Amôr

Julie sabe bem do que fala. É que ela própria tinha estado no centro de uma tentativa, não muito distante para reactivar as récitas em patuá — numa altura em que o D. Pedro V estava ainda envolto em andaimes de bambu.

No seu gabinete de relações públicas da poderosa STDM, guarda carinhosamente as actas das reuniões havidas na primeira metade de 1992, com vista a criar um grupo de teatro amador. José (Adé) dos Santos Ferreira ainda era vivo e foi um dos oito entusiastas jue participaram na primeira reunião desta espécie de “comissão instaladora”. Reunidos em volta das mesas do Café Lisboa, decidiram, logo aí. a 9 de Maio de 1992, que o grupo se intitularia Teatro Amador de Macau. No sobrenome, em inglês, ficava tudo explicado quanto a objectivos: A Revival for Survival.

A iniciativa teve outra reunião logo na semana seguinte, em que Adé, embora já debilitado, dava largas à sua irrequieta capacidade de inovação. Diz o memorando redigido por Julie: Adé sugeriu que deveríamos fazer uma peça moderna, inspirada na telenovela brasileira Sassá Mutema (que nessa altura passava na televisão local).

O terceiro e último encontro do grupo teve lugar na Casa Garden, a 13 de Junho. Julie já não tem minuta dessa reunião, mas de uma coisa está certa: Adé adoecera gravemente. E o ânimo revivalista (quase) foi a sepultar no cemitério de S. Miguel Arcanjo juntamente com os restos mortais de José dos Santos Ferreira, o poeta do patoá, falecido na Primavera de 1993.

Quase. Ironicamente, Adé, dinâmico e dinamizador em vida, acabaria por ser, também na hora da morte, um elemento catalisador e agregador da sua gente.

foto: Anôte na Isquadra com Sónia Palmer, Vítor Serra de Almeida, António Basaloco e Georgina Rangel

foto: Anôte na Isquadra com Sónia Palmer, Vítor Serra de Almeida, António Basaloco e Georgina Rangel

A era pós-Adé

Doci Papiaçam (08)

Miguel Senna Fernandes e António Lagariça na récita Liçám de Aerobics

Foi precisamente numa homenagem (quase espontânea) à memória de Adé, na Casa Garden, que se sentiu, pela primeira vez em muitos anos, um “cheirinho” da récita macaísta. Julie recorda: Foi tudo feito às três pancadas. Só tivemos uma semana para ensaiar. Pouco importava: nessa altura o que contava era a intenção.

Mas o “bichinho” ficara: pouco depois reuniam-se em casa de Julie os elementos do “grupo do Lisboa”, alargado já a outros filhos da terra. Henrique de Senna Fernandes, o decano da advocacia local, escritor nas horas-vagas, foi incumbido de alinhavar no papel o guião de uma futura récita. Afinal, seria o filho do causídico, Miguel, quem assumiria o papel destinado ao pai. Recorda o jovem advogado: Eu não sabia uma palavra de patoá, muito menos escrevê-lo. A não ser uma ou outra expressão que ficara da minha avó. Mas uma coisa era certa, eu queria participar, pois sempre gostei de teatro e musicais. Mais a mais, Miguel ainda se lembrava da única recita a que assistira, no D. Pedro V, em 1977 (Nhum Velo): Eu tinha 16 anos e lembro-me de que fiquei maravilhado.

Hoje, o autor já pensa em patoá quando está a escrever uma peça. Claro que não o faz sozinho, conta com o precioso apoio das “professoras” de patoá, como Mariazinha Correia Marques e Fernanda Robarts. Aliás, quase todo o trabalho criativo é feito em grupo: Reunimo-nos em casa deste ou daquele, cada um vai dando idéias e eu vou tirando notas de tudo, diz o advogado. Depois, é dar-lhes forma de guião.

Mas antes disto houve trabalho de pesquisa a fazer, houve que estudar récitas antigas e, enfim, houve que reactivar um gênero em vias de extinção.

Embora as novas récitas tenham muito a ver, sobretudo em termos estruturais, com as velhas operetas maquistas, tornou-se também imperioso adaptar o gênero às circunstâncias actuais, o que levou, designadamente,  a uma abertura generosa do patoá antigo a expressões que hoje integram um certo “linguajar” da comunidade macaense, em que se misturam influências do jargão cantonense e do inglês franco. Dantes não havia, por exemplo, aparelhos de vídeo ou laser; hoje todas as casas macaenses têm aparelhos destes!, diz Miguel Senna Fernandes para justificar uma ou outra “ofensa” aos puristas, até porque, acrescenta, o patoá já não se fala nos lares macaenses como antigamente. O próprio Adé foi injustamente criticado porque, por vezes, teve de “inventar” novos vocábulos para se referir a objectos ou realidades que não existiam no tempo dos nossos bisavós!

Os tempos mudaram, o patoá “adapta-se”, o chiste conhece novas dimensões, mas mantém-se o “alvo” preferido do humor maquista’. o establishment. Ou não fossem as récitas a caricatura dos costumes…

Há até quem lhes atribua parentesco próximo com a revista à portuguesa, mas Senna Fernandes encontra uma diferença fundamental entre os dois géneros: Não há entre os actores e o público da revista lisboeta uma ligação tão forte (étnica, emocional) como a que se estabelece na recita macaísta. Talvez só se sinta esta emoção numa revista quando, por exemplo, uma companhia portuguesa actua nos Estados Unidos ou no Canadá perante uma comunidade de emigrantes.

Doci Papiaçam (04)

foto mais acima: Liçám de Aerobics com “Elas” – Luís Machado, Lísbio Couto e Carlos Coelho. Na 2ª foto, além dos personagens, Miguel de Senna Fernandes

Os Dóci Papiaçám

É justamente esta forte “ligação” actor-espectador — que, em última análise, faz alargar o elenco potencial de uma récita a todos os macaenses — que anima e incentiva o revivalismo actual.

Depois da experiência da primeira récita (Olá Pisidenti) — uma récita sui generis, porque feita em homenagem ao Presidente da República, que visitava Macau —, o grupo reuniu esforços e decidiu instituir a “aventura”. Em meados de Novembro do ano passado (1993), nasce o grupo Os Dóci Papiaçám di Macau, fundado por doze — mais ou menos notáveis —filhos da terra (entre eles há mesmo um deputado à Assembléia Legislativa).

Desde então (1993 a Maio 1994) o grupo pôs em cena quatro espectáculos, no Teatro D. Pedro V, com a récita Mano Beto Vai Saiong, cujo elenco e equipa de produção integraram, para além dos doze fundadores, mais 17 colaboradores e a tuna musical Ecos de Macau.

Em Mano Beto, a récita já contém os ingredientes fundamentais: quatro scketchs que incluem uma trama central em dois actos (que dá o nome genérico à peça e relata as peripécias de uma família macaense típica ao regressar a Portugal — ou Saiong) e um imprescindível número de travestis, seguidos da apoteose final, onde não faltam as cantilenas e a música das tunas. O grupo decidiu também incluir sempre nas suas récitas uma homenagem a Adé, que consiste basicamente na apresentação de alguns dos seus poemas mais populares, que ele próprio adaptou a canções em voga.

Quanto a “alvos” glosados, também há de tudo: referências aos políticos da “onda”, aos tribunais, à polícia, enfim, à autoridade nas suas mais diversas formas. Lá estava o “drama” da integração e a transição; o metropolitano “com o rei na barriga” e o macaense “retinto”. A corrupção e o desenrascanço; amores e desamores. Macau da má-língu e dos preconceitos. Macau indolente e permissivo. O humor macaísta, em forma de chalaça — referiu Cecília Jorge na introdução da peça— será assim, indirectamente, o grande nivelador de classes, a vingança dos oprimidos e ressabiados, a sua chicotada nos poderosos e prepotentes, uma chamada de atenção para os aflitos.

A récita foi um êxito, três dos quatro espectáculos tiveram casa cheia e, no último, três quartos dos cerca de 290 lugares estavam ocupados. As receitas, como sempre, reverteram para a solidariedade social.

Doci Papiaçam (05)

Os planos

 A récita Mano Beto Vai Saiong foi gravada em vídeo e foram feitas cerca de 100 cópias em cassete. O objectivo é comercializá-las junto das comunidades de emigrantes macaenses. Segundo Julie Senna Fernandes, os pedidos não param de chegar.

Entretanto, está já na forja uma nova récita a apresentar no Natal. O grupo está, para o efeito, a tentar alargar o leque de colaboradores, sobretudo gente nova: É a única maneira de o patoá não morrer. O teatrinho da Escola Comercial Pedro Nolasco da Silva, instituição fundada e mantida por macaenses, pode ser um “viveiro” de novos talentos.

Pode. E o talento mais necessário, numa comunidade em desagregação, é a arte de sobreviver. E nisso, os macaenses têm sido exímios. E depois? Julie não responde. Chora.

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O público nas récitas: uma forte ligação actor-espectador

A apresentação do coral do Dóci Papiaçám di Macau por ocasião da transição de soberania de Portugal para a China em Dezembro de 1999, a cantar “Macau” em patuá (cantora: Isa Manhão / transmissão TDM-Televisão de Macau)

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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